sexta-feira, 27 de abril de 2012

Turandot

Nesta ópera inacabada de Puccini há uma das árias mais belas que conheço: Nessun Dorma (Que ninguém durma). Resolvi partilhá-la. Puccini novamente lançou mão de um tema oriental nesta obra - já havia composto Madame Butterfly, ambientado no Japão - desta vez na China imperial. Foi baseada numa peça de Carlo Gozzi com a adaptação de Friedrich von Schiller. Estreou no Teatro Scala de Milão a 25 de abril de 1926, sob a regência de Toscanini. Esta ópera ficou inacaba por causa da morte do autor, a 29 de novembro de 1924, sendo completada por Franco Alfano. Toscanini não gostou do final que Franco Alfano deu à ópera de Puccini, então, na cena de morte de Liù, virou-se para a plateia e disse: "Senhoras e Senhores, aqui parou Giacomo Puccini". A história começa na Praça da Paz Celestial em Pequim, onde um arauto do governo imperial anuncia ao povo que a Princesa Turandot desposará um pretendente de sangue real que decifre três enigmas que ela proporá. Aquele que se arriscar e fracassar será executado (traço sado-masoquista marcante de Puccini). O prícipe da Pérsia é o primeiro pretendente: não teve sorte. Mesmo com a multidão pedindo clemência, Turandot manda executá-lo impiedosamente. Neste momento surge o "Príncipe Desconhecido". Ele se apaixona pela princesa e resolve se candidatar ao "teste". Esse príncipe é Calaf, filho de Timur, rei destronado dos tártaros. Todos tentam fazê-lo mudar de idéia, inclusive seu pai, mas não adianta, ele pega o martelo e dá os três golpes no gongo, anunciando sua candidatura à mão da princesa. No segundo ato há mais súplicas de desistência e mais determinação de Calaf, então Turandot inicia os enigmas: "Qual é o fantasma que nasce todas as noites, apenas para morrer quando chega a manhã?" "É a esperança," responde o príncipe. Os sábios da corte atestam a resposta. Turandot parece ter sentido um choque, mas não se deixa abater, e diz cheia de malícia: "Sim! A esperança que ilude sempre!" Impassível, ela propõe o segundo enigma: "O que é vermelho e quente como a chama, mas não é chama?" "O sangue", responde o príncipe. Os sábios atestam novamente a resposta. Agora, Turandot fica mais nervosa, mas novamente se controla. Vem o terceiro enigma: "Qual é o gelo que te faz pegar fogo?" "Turandot." "Turandot! Turandot!" gritam os sábios. Resposta correta! Agora sim a princesa entra em desespero e se atira nos braços do pai suplicando: "Pai, não me obrigue a entregar-me a este estrangeiro!" Mas seu pai lhe responde que nada pode fazer pois o juramento é sagrado. Calaf, porém, diz que não quer ter Turandot contra a vontade dela. Ele propõe-lhe, então, um único enigma, se ela responder corretamente ele desiste do casamento e entrega sua cabeça ao carrasco. "Tens até a aurora," diz ele, "para descobrir meu nome." Inicia o terceiro ato com os funcionários imperiais percorrendo as ruas com as lanternas acesas ordenando o povo a ajudar a descobrir o nome do "Príncipe desconhecido" por determinação da princesa. É neste momento que ocorre a ária Nessun Dorma. Os ministros tentam em vão fazer com que o príncipe desista de Turandot, oferecendo-lhe riquezas e regalias. Calaf é obstinado e não muda de idéia. Alguém se lembra, então, que vira o príncipe em companhia de um velho, seu pai, e sua fiel servidora, Liù. Turandot ordena que a mulher seja torturada até dizer o nome do príncipe, mas morre sem dar uma palavra. O dia nasce com Timur chorando sobre o cadáver de Liù. Calaf fica frente a frente com Turandot. Ela pede que todos saiam e tem um duo com ele (este já composto por Franco Alfano) e se mostra mais humilde. Calaf conta qual é o seu nome, e os guardas chegam. Turandot restaura seu orgulho, mas na hora de falar qual é o nome de Calaf ela diz que o nome dele é "Amor".
Vejam com o eterno Pavarotti:
A tradução:
Que ninguém durma!
Que ninguém durma!
Você também, ó Princesa
Em seu quarto frio, olhe as estrelas
Tremendo de amor e de esperança
Mas meu segredo permanece guardado dentro de mim
O meu nome ninguém saberá
Não, não, sobre tua boca o direi
Quando a luz brilhar
E o meu beijo quebrará
O silêncio que te faz minha
O seu nome ninguém saberá
E nós teremos, oh!, que morrer, morrer
Parta, oh noite
Esvaneçam, estrelas
Ao amanhecer eu vencerei!
Vencerei! Vencerei!

domingo, 15 de abril de 2012

Johannes Kepler - Harmonices Mundi (A Harmonia do Mundo)

Johannes Kepler, protagonista de uma das mais dramáticas e belas "peças" do conhecimento humano, precursor de Newton, "Homem incomparável" segundo Eistein, indubitavelmente gênio.
Filho de Henrich Kepler e Katharina Guldenmann, nasceu a 27 de Dezembro de 1571, na pequena cidade de Weil der Stadt, no sul da Alemanha. Aspirava à carreira teológica, e foi seminarista no colégio Luteranista Stift. Certo dia, seu mestre, o matemático e astrólogo - não havia ainda uma clara distinção entre astronomia e astrologia - Michael Maestlin colocou-o em um debate no colégio em que dois alunos argumentariam a respeito das teorias Geocêntrica, aceita oficialmente, e Heliocêntrica, proposta por Copérnico e claramente execrada pela religião - Martinho Lutero zombara de Copérnico, afirmando que só um tolo poderia acreditar que a Terra giraria em torno de si mesma e do Sol, como um carrossel. Por ser brilhante em matemática e astronomia, Maestlin "jogou Kepler aos leões": coube a ele defender a visão heliocêntrica do mundo. Obviamente o massacraram no debate, inclusive pelo diretor da escola, Hafenreffer. Que absurdo, criticar Ptolomeu e Aristóteles! Quem achava que era aquele fedelho para tal heresia!... Que semente plantada... Kepler realmente achara aquela teoria lógica.
Passado algum tempo foi ser professor de matemática na Escola Protestante de Graz, na Áustria, em 1594, indicado por Maestlin e Hafenreffer. "Queria ter sido teólogo, durante muito tempo sofri com isso. Mas veja agora como louvo a Deus em meu trabalho como astrônomo" escreveu ao seu mestre em 3 de outubro de 1595, pois não desejava inicialmente sair do Stift, e se sentiu abandonado por aquele.
Casa-se com a viúva Bárbara Müller em 27 de abril de 1597. Vivia grandes dificuldades financeiras e, talvez por causa disso problemas com a esposa e o sogro, sua felicidade familiar única era Regina, sua enteada. Em 2 de fevereiro de 1598 nasce seu primeiro filho, Heinrich, mas morre após 2 meses de meningite. A esposa entra em depressão. Em junho de 1599 morre seu segundo filho, Suzanna, 38 dias após o nascimento. Sai de Graz em 27 de julho de 1600 devido a problemas religiosos: Fernando II de Hasbsburgo, líder da Contra-Reforma Católica, fecha o colégio e a igreja protestante de Graz e ordena que todos os padres e professores deixem a cidade.
Kepler vai com sua família a Praga, convidado por Tycho Brahe, o príncipe dos astrônomos, dono da maior coleção de dados astronômicos que existia. Foi viver no castelo Benátky, em Hradcany. Foi cheio de esperanças de trabalhar com Tycho. A realidade foi cruel: pessoa extremamente difícil, arrogante, com um séquito de nobres parasitas e invejosos, tratava Kepler como um ajudante, além de achar tolice a teoria heliocêntrica. Relegou Kepler ao estudo da órbita irregular - aparente, como descoberto posteriormente - de Marte, e restringia o acesso aos dados astronômicos. Tycho lhe ignorava. Resolveu sair de lá, e chegou a fazê-lo. Tycho recuou e conseguiu junto ao rei da Boêmia um cargo e salário para Kepler. Provavelmente ele sabia que dependia de Kepler para interpretar os dados de suas observações. Da mesma forma, Kepler dependia dos dados para suas teorias astronômicas... mas não se "bicavam". Certo dia, de madrugada, Tycho chega bêbado no castelo precisando urgentemente mijar. Fora em um jantar no castelo do barão Rozmberck e bebera sem parar. Havia um protocolo que ninguém deveria se levantar da mesa antes do anfitrião, e Tycho foi prendendo a urina até não poder mais. Como resultado teve uma séria infecção, que onze dias depois se tornou uma insuficiência respiratória. Antes de morrer pediu ao seu assistente, Jesensky, que chamasse Kepler. Pôs as mãos em seu ombro e disse-lhe: "Não deixe que minha vida tenha sido em vâo. Por favor... não me deixe ter vivido em vão..."
Kepler torna-se o sucessor de Tycho Brahe como novo matemático imperial de Rodolfo II. Porém trava uma nova batalha com a família de Tycho para que liberassem os dados astronômicos.
Durante todos esses acontecimentos, travava uma batalha matemática para provar o heliocentrismo, por muitas vezes quase desistindo, mas estava no caminho, Marte, que tanto estudara, estava dando-lhe um rumo.
Após conseguir os dados de Tycho, escreve a Astronomia Nova. A família cresce: a 9 de Junho de 1602 nasce Susanna, a 3 de Dezembro de 1604 Frederick e a 21 de Dezembro nasce Ludwig. Mas o casamento não era feliz. Barbara adoeceu gravemente e não suportou a morte do filho Frederick, que Kepler chamava de "caixinha de felicidade" com 6 anos, acabando por falecer devido a varíola a 3 de Julho de 1611.
Estourava a Guerra dos Trinta Anos, e novamente Kepler teve de se exilar, desta vez para Linz.
Casa-se novamente com outra viúva, Susanna Reuttinger, a 30 de Outubro de 1613. Sua nova esposa era o contrário da outra: bem humorada, companheira, dedicada ao marido e aos enteados. Passou um período de rara felicidade. Mas logo mudaria: sua mãe sofre um processo de excomunhão pela inquisição, acusada de 49 atos contra a fé cristã. Na verdade foi fruto de uma discussão com uma mulher e décadas de boataria, pois sua mãe era uma "curandeira". Kepler usou sua influência para soltar a mãe, mas não passara incólume pela inquisição: fora presa, acorrentada e torturada. Logo após esse fato, Regina, sua enteada falecera. E em seguida, sua outra filha, Margarethe Regina.
Sua vida na Terra era um caos, era hora de encontrar as leis que regem a harmonia do mundo. Intensifica seu trabalho e termina a sua grande obra, Harmonices Mundi. E prova matematicamente a teoria heliocêntrica. Perdeu mais três filhos muito cedo. Em 1626, as autoridades eclesiásticas de Linz consideram-no suspeito de heresia, selam a sua biblioteca e Kepler vê-se obrigado a deixar Linz, partindo para Ulm, nas margens do Danúbio. Em um inverno rigoroso, em viajem para Regensburg, na esperança que pagassem o que lhe deviam pelos seus préstimos, Kepler adoece e acaba por morrer a 15 de Novembro de 1629, aos 61 anos de idade. Nem mesmo após sua morte deixou de se exilar: seus restos mortais desapareceram quando o cemitério de Regensburg foi destruído durante a guerra. Deixou-nos como herança uma nova e belíssima visão do Cosmos.
Transcrevo agora dois trechos do seu diário pessoal, para que possamos apenas imaginar a magnífica e elegante mente desse gênio, que enxergou os movimentos celestes como uma sinfonia perfeita, e que mudou pra sempre as nossas.
É simplesmente de arrepiar! Confiram:

"1° de fevereiro de 1618
Meu coração está dividido: de um lado, as tristezas que a vida me traz e, do outro, a alegria que sinto ao contemplar as verdades escritas nos céus. Depois de sofrer terrivelmente, minha mãe - ou o que restou dela - enfim foi libertada. Mal festejamos, minha enteada e uma filha minha morreram, e outra teve de se mudar para longe. Suzanna e eu temos tentado lidar da melhor forma possível com essa sucessão de tragédias. Ludwig e Katharina são nossa única inspiração nestes difíceis dias. Não sei o que faríamos sem os dois. Deus os proteja!
Quando posso, fecho-me em meu escritório e procuro as harmonias do mundo. Voltei a estudar os ensinamentos de Pitágoras e de seus discípulos sobre as relações entre os números e os sons harmônicos. Benditos sejam nossos antepassados gregos! Descobriram, soando as cordas da lira, que os sons são agradáveis, ou melhor, harmônicos, apenas quando o comprimento de duas cordas satisfazem razões simples entre si - 1:2 (uma corda duas vezes mais longa que a outra), 3:4, 5:8, etc... Ao refletir sobre isso, perguntei-me por que razões envolvendo o número 7, como 1:7 ou 3:7 criam sons dissonantes.
Descobri a resposta usando a geometria! Quais as figuras geométricas que cabem dentro de um círculo, dividindo-o em arcos de tamanhos iguais? Resposta: as que dividem os 360 graus do círculo em partes iguais! O triângulo, por exemplo, divide o círculo em arcos com 1:3 e 2:3 de sua circunferência; o quadrado, em arcos de 1:4, 1:2, 3:4, o pentágono, com 1:5, 2:5...; o hexágono, 1:6..., 5:6. Pois são justamente essas razões que criam as notas harmônicas! O mesmo não ocorre com o heptágono (1:7...,6:7). E por que não? Porque o heptágono é uma das figuras que não podem ser construídas usando-se um compasso, uma régua e as regras da geometria de Euclides. O mesmo ocorre, por exemplo, com o polígono de onze lados. Isso não é uma coincidência! Ambas são uma aberração geométrica, justamente chamadas de formas "incomensuráveis". Portanto, não podem pertencer aos arquétipos harmônicos com que Deus construiu o Cosmos.
Sabemos disso porque nós, humanos, temos a habilidade instintiva de perceber ordem, em particular a ordem geométrica das coisas. É como se Deus tivesse nos dado o dom de enxergar o mundo como uma combinação de formas e proporções determinadas pelas leis da geometria. A música, como demonstraram os pitagóricos, foi o primeiro exemplo. E não é necessário que sejamos músicos para compreender isto: uma pessoa que não entende de música nem de matemática sabe, ou melhor, sente quando um instrumento está desafinado. Sua alma ressoa apenas quando aqueles sons são harmônicos... Sons dissonantes criam antagonismos, influências negativas. Conforme argumentei acima, os sons harmônicos têm representações geométricas, dadas pelos polígonos "comensuráveis". São esses os átomos que Deus usou para construir o mundo, os átomos da harmonia cósmica.
Afinal, não demonstrei em meu Mysterium que as órbitas dos planetas são descritas pelos cinco sólidos platônicos? E como são construídos esses sólidos? Com base em polígonos mensuráveis! Sim, existem discrepâncias entre os dados de Tycho e minha hipótese poliédrica. Mas quão ínfimas são quando consideramos a vastidão das distâncias cósmicas! Só o que podemos fazer é usar nossa mente imperfeita para imitar a perfeição divina. A astronomia e a filosofia natural devem ser vistas assim, como representações imperfeitas da obra perfeita de Deus.
Continuarei a buscar as relações harmônicas que regem as órbitas planetárias e as interações entre o cosmo e o homem. Se Deus usou arquétipos geométricos para construir o mundo, essa harmonia não se limita à música. Tudo o que existe, do comportamento humano aos movimentos celestes, deve obedecer às mesmas regras fundamentais. Preciso apenas encontrá-las!"

"23 de maio de 1618.
Desde fevereiro que procurava a música oculta no movimento dos planetas. Se Deus usou os mesmos arquétipos geométricos para criar o mundo, as mesmas leis que regem as órbitas celestes têm de reger as harmonias da música. Minha missão é - e sempre foi - encontrar essas leis. Às vezes, sinto-me como um viajante que deixou a tudo e a todos em busca das terras dos sonhos. Amigos e parentes diziam-lhe que morreria antes de achar algo, que havia perdido a razão, que era loucura aventurar-se rumo ao desconhecido. Sozinho em seu barco, ignorando a todos, o viajante partiu, inspirado pela visão de terras mágicas, lutando contra o frio e a fome, enfrentando tempestades terríveis. Durante anos prosseguiu corajosamente, sem nada descobrir. Até que, um dia, Deus presenteou-o. Seu tesouro não consistia em montanhas de ouro e diamantes ou em mulheres belíssimas. Não..., o viajante encontrou uma pequena janela, uma janela que lhe permitia vislumbrar, por um breve momento apenas, a mente do criador. E a luz que viu, a beleza que lhe foi revelada, transformou-o para sempre. Ele não se importou quando retornou à aldeia e ninguém acreditou nele, acusando-o de ter enlouquecido de vez; sabia que era uma questão de tempo, que no futuro as pessoas lhe dariam ouvidos e sua visão seria celebrada por toda a humanidade.
Primeiro, tentei encontrar padrões harmônicos nos períodos orbitais dos planetas. Usando os dados de Tycho, experimentei tomar razões entre diferentes períodos, comparando os resultados com as razões harmônicas das escalas musicais. Não tive êxito. Tentei então encontrar relações entre as distâncias dos planetas ao Sol, novamente comparando-as às razões entre as notas musicais. Mais uma vez fracassei. Comecei a entrar em pânico. Será que estivera errado todos aqueles anos? Será que minha busca obsessiva por uma lei harmônica era o devaneio de um louco? Será que o viajante termina espatifado em um recife? Não, não era possível. Eu não podia viver num cosmo dissonante. A sabedoria de Deus tinha de estar oculta na estrutura do universo, eu estava convencido disso. Não podia desistir, precisava continuar a navegar. Talvez as razões harmônicas estivessem entre as velocidades mais extremas das órbitas dos planetas: a mais rápida no ponto mais próximo ao Sol, e a mais lenta no ponto mais distante dele. Outro fracasso. Dias se passaram. Faltava-me idéias.
Foi então que aconteceu. Resolvi, numa intuição louca, transferir-me dos planetas para o Sol, imaginando como os movimentos cósmicos seriam percebidos por um observador solar. Mas claro! Afinal, o Sol não era o centro dos movimentos? Nesse caso, lá é que devia residir o segredo da harmonia do mundo. Comecei por Saturno: em relação ao Sol, sua velocidade mais lenta é de 106 segundos de arco por dia, e a mais veloz, de 135 segundos de arco por dia. A razão entre as duas é 0,785, muitíssimo perto de 4:5 (ou 0,8), uma terça maior! MInha mão tremia, mal conseguia segurar a pena. E os outros planetas? Todos satisfazem razões semelhantes às notas musicais : Júpiter, uma terça menor; Marte, uma quinta. Podia ver as notas dançando diante de mim. Em seguida, comparei as mesmas duas velocidades extremas entre pares diferentes de planetas, usando os resultados para construir escalas harmônicas para cada planeta, a música que criam ao girar pelos céus, a harmonia cósmica. É essa a sinfonia de Deus, a música eterna da Criação, que revelarei ao mundo para que todos possam deleitar-se com suas harmonias. Seria impossível expressar minha felicidade... Apenas aqueles que passaram longos anos buscando a verdade, imersos na escuridão da ignorância, podem compreender o júbilo transcendente da descoberta.
Para completar minha obra, restava uma última tarefa: encontrar a lei que relaciona a distância do planeta ao Sol (D) ao tempo que ele leva para completar sua órbita (T). A razão entre os dois números, expressão máxima da harmonia cósmica, tinha de ser a mesma para todos os planetas. Comecei com a razão mais simples, T/D. Não funcionou: para Mercúrio obtive 0,62, e, para Saturno, 3,10. Tentei, então, a combinação T/D². De novo não obtive sucesso, Mercúrio contava agora a maior razão, e Saturno a menor. Em seguida, calculei T²/D². Nada. Por fim, já quase sem esperanças, tentei T²/D³. E funcionou! A razão é igual a 1 para todos os planetas! No início pensei que se tratava de um sonho. Confirmei os números freneticamente, e não encontrei erro algum! Uma única lei relaciona distância e tempo, revelando em sua simplicidade a concepção harmônica do cosmo. É essa lei que tanto procurei, a lei que liga cosmo e mente, que demonstra que toda a Criação provém da unidade de Deus. Minha busca está encerrada.
Termino este diário com uma oração:
Que a unidade revelada nestas páginas, expressão da perfeição divina, ilumine o espírito enfraquecido dos homens, alimentando o amor ao próximo e restaurando a paz entre todos os credos. Que a harmonia que rege o mundo conforte nossos pesados corações e desperte os homens para uma nova era, baseada na liberdade e no respeito à vida."



Amém, magnífico Johannes Kepler!

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Ilha das Flores.

Vi há um bom tempo, não me lembro exatamente quando, este curta metragem. Ouso dizer que é o melhor, ou um dos melhores que já vi. Produzido em 1989 por Giba Assis Brasil, Mônica Schmiedt e Nôra Gulart; com roteiro de Jorge Furtado e narração de Paulo José; foi premiadíssimo no Brasil e exterior: Melhor Curta no Festival de Gramado em 1989, Melhor Edição no Festival de Gramado em 1989, Melhor Roteiro no Festival de Gramado em 1989, Prêmio Crítica e Público no Festival de Clermont-Ferrand em 1991, Prêmio da Crítica no Festival de Gramado em 1989, Prêmio do Público na Competição "No Budget" no Festival de Hamburgo em 1991, Urso de Prata no Festival de Berlim em 1990. .
Atualíssimo, escancarado, ácido, nos mostra logicamente a sociedade de consumo e as desigualdades sociais geradas pelo processo de acumulação de riquezas partindo da plantação de tomates. Dinâmico na construção argumentativa e grandioso no desfecho com a célebre definição de liberdade da Cecília Meireles: Liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta, não há ninguém que explique e ninguém que não entenda.! Vejam, é excepcional!

segunda-feira, 26 de março de 2012

Meninos

Para Vitor, Lucas, e todas as crianças que estão dentro de nós!

Cantoria - Saga da Amazônia

Obra clássica da música regional brasileira, o disco Cantoria, com Elomar, Geraldo Azevedo, Vital Farias e Xangai. O disco inteiro é espetacular, simplesmente um dos melhores que já ouvi. Em uma das músicas, Vital Farias conta a história da Amazônia englobando tanto o problema ambiental quanto social de uma forma tão elegante, tão inteligente e simples que arrepia. Vocês verão!
A fina flor da música brasileira.



Saga da Amazônia

Era uma vez na Amazônia, a mais bonita floresta
mata verde, céu azul, a mais imensa floresta
no fundo d´água as Iaras, caboclos lendas e mágoas
e os rios puxando as águas
Papagaios. periquitos cuidavam de suas cores
os peixes singrando os rios, curumins cheios de amores
sorria o Jurupari, Uirapuru, seu porvir
era fauna, flora, frutos e flores.

Toda mata tem caipora para a mata vigiar
veio caipora de fora para a mata definhar
e trouxe dragão-de-ferro pra comer muita madeira
e trouxe em estilo gigante prá acabar com a capoeira.

Fizeram logo o projeto sem ninguém testemunhar
pro dragão cortar madeira e toda a mata derrubar
se a floresta, meu amigo, tivesse pé pra andar
eu garanto, meu amigo, com o perigo não tinha ficado lá.

O que se corta em segundos gasta tempo pra vingar
e o fruto que dá no cacho pra gente se alimentar?
Depois tem o passarinho, tem o ninho, tem o ar
igarapé, rio abaixo, tem riacho e esse rio que é um mar

Mas o dragão continua na floresta a devorar
e quem habita essa mata pra onde vai se mudar?
Corre índio, seringueiro, preguiça, tamanduá,
tartaruga, pé-ligeiro, corre corre tribo dos Kamayurás.

No lugar que havia mata hoje há perseguição
grileiro mata posseiro só pra roubar seu chão
castanheiro, seringueiro já viraram até peão
afora os que já morreram como ave-de-arribação
Zé de Nana tá de prova, naquele lugar tem cova
gente enterrada no chão.

Pois mataram índio que matou grileiro que matou posseiro
disse um castanheiro para um seringueiro que o estrangeiro
Roubou Seu Lugar

Foi então que o violeiro chegando na região
ficou tão penalizado que escreveu essa canção
e talvez, desesperado com tanta devastação
pegou a primeira estrada, sem rumo sem direção
com os olhos cheios de água, sumiu levando essa mágoa
dentro do seu coração

Aqui termina essa história para gente de valor
pra gente que tem memória, muita crença, muito amor
pra defender o que ainda resta, sem rodeio, sem aresta
Era Uma Vez Uma Floresta Na Linha Do Equador.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Mohandas Karamchand Gandhi - "Mahatma"

Deparei-me hoje com um livro que havia dado a minha mãe sobre Gandhi. Não há como não fazer uma menção modesta aqui no blog. Modesta porque creio que qualquer coisa que se escreva ou fale sobre ele assim o será sempre, em vista da magnificência de caráter e atos deste homem.
Li sua autobiografia há algum tempo. Recorro às palavras de Eistein para traduzir a grandeza da personalidade de Gandhi: "Será difícil para as gerações futuras acreditar que uma pessoa como essa, em carne e osso, andou sobre a Terra".
Para os leitores que pouco sabem sobre Gandhi farei uma breve história de sua vida, para quem já o conhece que sirva de memória, que vale sempre a pena resgatar.
Mohandas Karamchand Gandhi nasceu em 2 de outubro de 1869 em Porbandar, Guzerate, Índia. Seus pais eram hindus, e seu pai era o primeiro-ministro local, uma espécie de prefeito. Casou-se com Kasturba em um casamento arranjado, como de costume, aos treze anos. Logo depois foi para Londres estudar direito. Lá teve o primeiro contato com duas leituras que iriam se tornar uma espécie de guia pessoal: O Baghavad-Gita e o Evangelho, mais precisamente o Sermão da Montanha. Formou-se advogado em 1891 e voltou para a Índia. Devido a sua timidez, não conseguiu desempenhar bem o seu trabalho, então aproveitou uma oportunidade para trabalhar em uma empresa indiana na África do Sul. Logo chegando ocorreu um fato que segundo ele próprio mudou completamente sua visão da vida, o embrião dos seus feitos humanísticos: ao pegar um trem para o Transvaal, o guarda que fiscalizava o comboio o viu, e começou a bater-lhe e xingar-lhe sem o menor motivo aparente. Parou o trem e o expulsou a pontapés. O motivo: sua pele escura não lhe permitia viajar naquele vagão. Foi incansável na luta pelos direitos dos imigrantes indianos, e iniciou sua doutrina de resistência pacífica contra a injustiça, o Satiagraha, ou "O caminho da Verdade", o que lhe custou várias prisões ao longo de sua vida. Em uma de suas prisões, em 1907, foi obrigado a trabalhos forçados por dois meses. Trocava correspondências com Leon Tolstói, um dos seus ídolos, e este lhe indicou a leitura de Thoreau. Começa a idéia da desobediência civil, uma das mais poderosas "armas" de Gandhi. Começou a perceber cada vez mais as possibilidades infinitas do "amor universal".
Retorna à Índia em 1915, após mudar radicalmente a vida dos indianos na África do Sul. Inicia sua longa e incansável batalha com a Grã-Bretanha pela independência de seu país. Jamais teve sua convicção de não-violência e tolerância religiosa abaladas, mesmo em situações de extrema violência por parte do governo e do povo. Quando seus compatriotas muçulmanos ou hindus cometiam atos de violência - entre si ou contra os ingleses - ele jejuava até o conflito cessar. Foi chamado de "tropa de paz de um homem só" pelo vice-rei da Índia. A independência chegou em 1947. Porém, para desespero de Gandhi, o país foi dividido em Índia hindu e Paquistão muçulmano. Ele passou os últimos meses empenhado em extinguir a terrível violência que se seguiu. Jejuou até quase morrer, mas pôs fim aos conflitos. Em 30 de janeiro de 48, aos 79 anos, passava por um jardim apinhado de gente para fazer suas preces vespertinas, quando Nathuram Godse, um hindu radical que responsabilizava Gandhi pelo enfraquecimento do novo governo ao insistir no pagamento de certas dívidas ao Paquistão, o assassinou a tiros. Seu corpo foi cremado e as cinzas jogadas no Ganges. Deixou como herança sua fiadeira, seus óculos, a bengala e o exemplo que a humanidade e bondade venceu o maior império da Terra até então.
Nunca venceu o Nobel da paz, ainda que tenha sido sido indicado 5 vezes. O erro foi reconhecido pelo comitê organizador décadas depois, na entrega do prêmio a Sua Santidade O Dalai Lama. O presidente do comitê falou que o prêmio era "em parte um tributo à memória de Mahatma Gandhi".
Foi reconhecido por seu povo e pela humanidade sob o título de "Mahatma", ou A Grande Alma.

"Nada tenho de novo a ensinar ao mundo. A verdade e a não-violência são tão antigas quanto as montanhas. Tudo que tenho feito é realizar experiências em relação a uma e à outra, da forma mais abrangente possível. Ao fazê-lo, às vezes cometi erros - e aprendi com eles. A vida e seus problemas tornaram-se pra mim experimentos na prática da verdade e da não-violência..."

"Não tenho a menor sombra de dúvida de que qualquer pessoa, homem ou mulher, pode alcançar o que alcancei. Basta fazer o mesmo esforço e cultivar a mesma esperança e a mesma fé."

"A força não vem da capacidade física, mas de uma vontade indomável".

"É pelo fato de todos reivindicarem o direito de livre consciência sem exercer qualquer disciplina que há tanta inverdade sendo dita a um mundo perplexo".

"O amor é a força mais sutil do mundo".

"A esposa não é escrava do marido, mas sua companheira e parceira em todas as alegrias e tristezas, tão livre quanto ele para escolher o próprio caminho".

"Liberdade jamais significou licença para se fazer o que quiser".

"A não-violência e a covardia não combinam. Posso imaginar que um homem fortemente armado seja, no fundo, um covarde. A posse de armas implica um elemento de medo, se não de covardia. Mas quem não possui uma coragem inflexível não é capaz da não-violência legítima."

"A não-violência nunca deveria ser usada como escudo para a covardia. Ela é uma arma para os bravos".

"A não-violência não está em amar aqueles que nos amam. Ela só existe quando amamos aqueles que nos odeiam. Sei como é difícil seguir essa grande lei de amor, mas todas as coisas grandes e boas não são difíceis de fazer? Amar a quem nos odeia é a mais difícil de todas. Mas, com a graça de Deus, mesmo essa tarefa se tornará fácil se assim o desejarmos".

'A Bíblia é para mim um livro religioso, como a Gita e o Corão",

" Se tivermos ouvidos para ouvir, Deus nos falará em nossa própria língua, qualquer que seja ela".


Amém, Mahatma Gandhi!





segunda-feira, 19 de março de 2012

Tao Te Ching - "O Livro que revela a essência"

Os tradutores de chinês recorrem a mais de 30 palavras diferentes para exprimir o sentido do ideograma Tao. Pode ser traduzido como O Insondável, O Absoluto, A Essência, A Suprema Realidade, A Inteligência Cósmica, etc... Te pode ser traduzido como revelação, caminho, diretriz, e Ching pode ser traduzido como livro, documento. O Tao Te Ching é o livro do taoísmo fundamental, tradição filosófica e religiosa que tem influenciado os povos do leste da Ásia há mais de 2.500 anos. A astrologia chinesa, a culinária chinesa, o zen budismo, várias artes marciais chinesas, a medicina tradicional chinesa, o feng shui, entre outras manifestações orientais, têm sido entrelaçados com o taoismo ao longo da história.
Lao-Tsé, o escritor do Tao Te Ching, viveu na China, na corte de Chou, no séc. VI antes de Cristo, trabalhando como historiador e bibliotecário até os seus quarenta anos. Depois, abandonou a corte e foi viver como um eremita na floresta, estudando e meditando. Com cerca de oitenta anos, cruzou a fronteira ocidental da China, e se deparou com um soldado da divisa, que lhe pediu um resumo de sua filosofia. Lao-Tsé lhe entregou um pequeno manuscrito, com a essência dessa filosofia, o Tao Te Ching. Após entregar o manuscrito simplesmente desapareceu sem deixar nenhum vestígio. Lao pode ser traduzido como criança, jovem, adolescente; e Tsé pode ser traduzido como idoso, maduro, sábio, espiritualmente adulto.
Toda a filosofia taoísta é permeada pela bipolaridade complementar cósmica, elegantemente representada pelo Tei-Gi, símbolo que reflete o estado de interdependência das duas polaridades universais. Uma está contida na outra, giram em torno de si, se completam e se integram numa formação que transcende a dualidade, caracterizando a interdependência e complementariedade. A curvatura que os divide remonta à flexibilidade de limites entre as polaridades e ao mesmo tempo dão a idéia de rotação e movimento. Podemos dizer: um símbolo perfeito.
O Tao Te Ching é formado por 81 poemas da mais rara beleza e profundidade. Cada vez que os lemos visualizamos diferentes compreensões e aspectos. Simplesmente espetacular! Aliás, é justamente por serem extremamente simples e curtos que os poemas são tão profundos. Indico a todos lerem...aqui vai uma prévia:

Poema 2

Só temos consciência do belo
Quando conhecemos o feio.
Só temos consciência do bom
Quando conhecemos o mau.
Porquanto o ser e o existir
Se engendram mutuamente.
O fácil e o difícil se completam.
O grande e o pequeno são complementares.
O alto e o baixo formam um todo.
O som e o silêncio formam a harmonia.
O passado e o futuro geram o tempo.
Eis porque o sábio age pelo não-agir.
E ensina sem falar.
Aceita tudo que lhe acontece.
Produz tudo e não fica com nada.
O sábio tudo realiza - e nada considera seu.
Tudo faz - e não se apega à sua obra.
Não se prende aos frutos da sua atividade.
Termina sua obra
E está sempre no princípio.
E por isso sua obra prospera.

Poema 33

Inteligente é quem outros conhece;
Sapiente é quem conhece a si mesmo.
Forte é quem outros vence;
Poderoso é quem se domina a si mesmo.
Ativo é quem muito trabalha;
Rico é quem vive feliz.
Firme é quem vive em seu posto;
Eterno é quem supera a morte.

domingo, 18 de março de 2012

Esopo

"Acho que deveríamos colocar Esopo entre os grandes sábios de que a Grécia se orgulha, ele que ensinava a verdadeira sabedoria, e que a ensinava com muito mais arte que os que que usam regras e definições." - La Fontaine.
Na verdade, não há nenhum registro histórico deste sábio, há uma crença que ele existiu, aliás, muito parecido com outro grego notório, Homero. O único registro é que as fábulas a ele atribuídas foram reunidas pela primeira vez por Demétrio de Cúlau, em 325 a.C., mas já havia citações a ele no séc. V a.C. Através dele e de outros parcos registros, imagina-se que foi um escravo liberto por seu último senhor, Xanto. Além disso, que tinha uma aparência bem feia e era corcunda, mas possuía uma sabedoria ímpar, o dom da palavra e a habilidade de contar histórias onde os animais eram personagens principais e que terminavam com tiradas morais. Se atribui a ele a paternidade da fábula como gênero literário.
De qualquer forma, suas fábulas são de extrema sabedoria e sob uma roupagem bem simples e didática, no sentido mais literal da palavra, clássico. Vejam algumas:

O cabrito e o lobo
De casa em que se encontrava, um cabrito viu passar um lobo. Pôs-se a insultá-lo e a escarnecer-lhe. O lobo disse, então:
O insulto não vem de ti, mas do lugar onde estás.
Muitos deixariam de ser valentes diante dos fortes se não estivessem em lugar seguro.

A parede e a cavilha
Uma parede atravessada brutalmente por uma cavilha gritou:
- Por que estás me furando, eu não te fiz nada!
A cavilha respondeu:
- Não sou eu, é alguém que está me batendo violentamente por trás!

A serpente pisoteada
Uma serpente que era frequentemente pisoteada foi pedir a Zeus que a ajudasse. Zeus lhe respondeu:
- Se tivesse mordido o primeiro que te pisou, um segundo não teria feito o mesmo.
Se enfrentares os primeiros que te atacam, os outros te temerão.

A raposa e o lenhador
Uma raposa estava fugindo dos caçadores. Ao ver um lenhador, suplicou-lhe um esconderijo. O lenhador convidou-a a se esconder em sua cabana. Os caçadores não tardaram a chegar e perguntaram ao lenhador se não tinham visto passar uma raposa. Ele disse que não com a voz, mas apontou-lhe com o dedo onde ela estava escondida. Os caçadores não levaram o gesto em consideração, prestando atenção somente no que ele falara. Ao vê-los se afastar, a raposa saiu sem dizer uma palavra. O lenhador repreendeu-a:
- Veja só! Não tens nem mesmo uma palavra de agradecimento para quem te salvou?
A raposa respondeu:
- Eu diria obrigado se tuas palavras estivessem de acordo com teus gestos.
Só quem pensa em fazer o mal é que chama a atenção sobre suas virtudes.

A víbora e a raposa
Uma víbora estava sendo levada pela correnteza de um rio sobre um feixe de espinhos. Ao vê-la, a raposa que passava lhe disse:
- O piloto tem a nau que merece.

A raposa e as uvas
Uma raposa estava faminta e viu um cacho de uvas numa latada. Quis pegá-lo, mas não conseguiu. Ao se afastar disse para si mesma:
- Estão verdes.
O homem que culpa as circunstâncias fracassa e não vê que o incapaz é ele mesmo.

Esopo por Velasquez:

domingo, 11 de março de 2012

Bhagavad-gita.

Essência do conhecimento védico da Índia, é uma das maiores obras filosóficas e espiritualistas do mundo. Faz parte do épico monumental Mahabarata, o maior volume de texto escrito em uma única obra da humanidade, com mais de 90.000 versos, escrito por volta do séc. VI antes de Cristo. O Bhagavad-gita é uma das principais escrituras sagradas da cultura indiana, e compõe a principal obra da religião Vaishnava, também conhecida como movimento Hare Krishna, além de influenciar inúmeros movimentos espiritualistas e filosóficos.
Apresento uma introdução escrita por Chandramukha Swami, da obra Meditando com Krishna, que acho belamente resumida:

"Dhritarastra era o irmão mais velho de Pându, mas como havia nascido cego, não pode herdar o trono de seu falecido pai. Assim, o virtuoso Pându tornou-se o imperador do mundo. Entretanto, os desígnios misteriosos do destino surpreenderam-no com uma morte prematura, num momento em que seus cinco filhos, conhecidos como Pândavas, ainda não tinham idade suficiente para reinar.
Com a morte de Pându, o cego Dhritarastra teve que assumir temporariamente o comando do império. Seus filhos eram conhecidos como Kurus e o principal deles, o invejoso Duryôdhana, personificava a própria desavença.
Assim, enquanto esperavam a maioridade para assumir o reinado, os órfãos Pândavas cresceram juntamente com seus primos, sob os cuidados de Dhritarastra. À medida que isso acontecia, a natureza divina e a nobreza de caráter dos Pândavas acompanhavam o seu crescimento. Por um lado, eles se tornavam cada vez mais admirados e amados por todos e, por outro, mais odiado e invejado por seus primos. Não suportando a idéia de que os piedosos Pândavas pudessem assumir o trono ocupado por seu pai, os Kurus arquitetaram diversos planos perversos para matá-los. Porém, como os Pândavas estavam resguardados pela proteção divina, todas essas investidas foram mal sucedidas.
Pacientemente, os Pândavas toleraram os diferentes atentados contra suas vidas e, em nome da paz, estavam dispostos até mesmo a trocar o vasto império por uma insignificante porção de terra. Mas nem isso os Kurus concordaram em aceitar. Diante dessa insustentável situação, uma grande batalha fratricida tornou-se inevitável. Portanto, para impedir que a humanidade sofresse nas mãos de uma liderança mal intencionada, os Pândavas foram forçados a se apresentar com sua força militar no campo de batalha de Karukshetra, onde todos os guerreiros do mundo se dividiram em dois grandes exércitos. Enquanto alguns combatentes se aliaram aos Pândavas, que eram liderados por Árjuna, o maior arqueiro do mundo, a maioria decidiu apoiar os Kurus.
Nesse momento decisivo da história, Krishna, a Pessoa Suprema, vivia na terra e Se relacionava com Árjuna como primo e amigo pessoal. Ele havia acompanhado todas as tentativas frustradas de conciliação, tendo inclusive intermediado a última proposta de paz. Como conhecia profundamente o piedoso Árjuna, Krishna sabia que, sob a pressão do iminente confronto familiar, seu apego o levaria à decisão imatura de abandonar seu dever, o que comprometeria o Dharma, a ordem do mundo. Portanto, para ajudá-lo a superar sua fraqueza e, ao mesmo tempo, colocar a humanidade sob a proteção de uma liderança qualificada, Krishna Se dispõe a conduzir sua carruagem na luta contra o mal.
Na verdade, a batalha não passou de um excelente pretexto para que o diálogo transcendental entre Krishna e Árjuna tivesse lugar, oferecendo um guia perfeito de autoconhecimento para as futuras gerações. Em outras palavras, o dilema vivido por Árjuna é familiar a todos, pois, de uma maneira ou de outra, os apegos e condicionamentos atuam sempre como verdadeiros inimigos.
O cenário está montado. Os dois exércitos estão enfileirados. Búzios, clarins, cornetas e tambores soam com estrondoso vigor, iniciando que o início da batalha está próximo. Atendendo ao pedido de Árjuna, Krishna guia sua carruagem até o meio dos dois exércitos. Então, diante dos combatentes adversários, Árjuna reconhece inúmeros mestres, tios, primos, amigos e pessoas queridas por ele. Tomado pela compaixão e pelo medo, seu corpo treme, sua mente se agita e seu arco e flechas escorregam das mãos. Com lágrimas nos olhos, Árjuna diz:
- Ó Krishna, quão grande é minha desgraça! Mesmo que a cobiça tenha dominado meus parentes, não concordo em lutar contra eles simplesmente em troca de reino ou felicidade mundana! Que terrível destino conquistar uma herança coberta de sangue! Mesmo que seja correto combater os agressores do Dharma, eles são meus parentes e tenho profunda adoração por eles. Ó Govinda, eu não lutarei!
Vendo a condição desamparada de Seu amigo, Krishna diz: - Querido Árjuna, tua dita compaixão não passa de sentimentos egoístas, e tua pretensa não-violência, de mera covardia. O que ganharás com essa impotência? Entregar-se a ela significa se privar da elevação aos planetas superiores e garantir tua desonra na Terra. Portanto, levanta-te e luta!"

Inicia-se então um dos mais espetaculares diálogos da história. Na realidade, a luta de Árjuna, é a luta do homem para alcançar a felicidade através do desapego das coisas materiais e da consciência cósmica. O campo de batalha é ilusório e está na mente de Árjuna.
Indico a todos que leiam, se não todo, trechos do Bhagavad-gita, pois é de uma beleza e sabedoria incomuns, um monumento a literatura universal.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Velasquez.

De todos os grandes pintores, é o que eu mais admiro. Não produzia o estilo que mais gosto, o impressionismo, mas concordo com um impressionista famoso, Édouard Manet, que afirmou que Velasquez foi o "pintor dos pintores".
Diego Rodríguez de Silva y Velázquez nasceu em Sevilha a 6 de junho de 1599. Vindo de uma nobre família portuguesa - do Porto - foi estudar pintura aos 10 anos com Francisco Herrera, apaixonado pela arte de Caravaggio, do qual segue, principalmente em seus primeiros trabalhos, o estilo denominado tenebrismo, que acentua os contrastes entre as zonas claras e escuras. Depois foi aprendiz do atelier de Francisco Pacheco, e monta sua própria oficina em 1617. Em 1623 torna-se pintor do rei Felipe IV, e também pintor de câmara da corte real. É a idade de ouro da realeza espanhola, e lá está Velasquez a retratando.
De todos os seus quadros, alguns para mim são extremamente marcantes: "As Meninas", sua obra-prima. Tem como centro a infanta Margarida Maria, e todo o séquito a sua volta, inclusive o próprio Velasquez pintando. Em uma de suas viagens a Itália, retratou o Papa Inocêncio X. Impressionante a fisionomia retratada, captando a severidade e inclemência em seu olhar. E o retrato do príncipe Balthazar Carlos em seu cavalo. Demonstrando seu ar arrogante e autoritário ainda menino. E ainda, pela leveza, sensibilidade e riqueza de detalhes, As Fiandeiras.
Morreu em 6 de agosto de 1660, em Madri. Influenciou inúmeros grandes pintores, como Picasso, Salvador Dali, Manet e o estilo impressionista. Apreciem algumas obras desse gênio.